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segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Felicidades cotidianas


Um escritório onde era um quarto. Um pulo lá no futuro. Estar de volta à rotina parece ter acordado um delicioso prazer pelos pequenos hábitos cotidianos. Ouvir música de manhã cedinho em direção ao trabalho, tomar café na paz ainda que muito atrasada... aquelas felicidades íntimas que a gente encontra no simples e só redescobre quando passa um tempo sem fazer.

Lembra-me de quando vou para a academia, vez ou outra, saboreando a sensação de estar caminhando em direção a mim mesma. Com toda minha presença, acompanhada por uma playlist que costuma dar ainda mais energia para ambas caminhadas. Outra felicidade cotidiana.

“Tudo tem um propósito, até as máquinas. 
Os relógios dizem as horas e os trens levam a algum lugar. Elas servem ao seu propósito.
Talvez por isso as máquinas quebradas me deixam tão triste.
Elas não servem aos seus propósitos. Talvez seja igual com as pessoas:
se você perde o seu propósito, é como estar quebrado. ”
(Hugo Cabret)

Então, perco celular, pneu, calota, biquíni e a palavra que me chega é encontro. Não imaginava que perder objetos fosse estímulo para ressignificar processos e propósito. (A gente não imagina um punhado das possibilidades até precisar pensar nelas.) Em todos os dez dias que passei sem celular, me permiti ressignificar. "O que realmente importa? Do que eu realmente preciso para ser feliz?" Ter ficado sem whatsapp, por exemplo, estimulou-me a constatar: o urgente toma o lugar do importante cotidianamente. Desfrutar o encontro com o silêncio, olho no olho, conversa, presença,  PRESENTE. Mais felicidades cotidianas.

Aí me vem a palavra decrescimento. Escutei em uma roda de troca no final de dezembro. Etimologicamente, vem de descrença.  Degrowth em inglês. Um movimento político que consiste em, digamos, pensar fora da lógica da posse do excesso. São oito erres. Reavaliar, reconceituar, reestruturar, redistribuir, relocalizar, reduzir, reutilizar e reciclar. Em um google, dá para saber mais. (Veja aqui onde li mais!) (E aqui também!). Em mim, decrescer reverberou assim: para a festa de virada, ressignifiquei um vestido (usado) que comprei em um bazar. Lindo. Azul bic com listras espaçadas em azul céu, lilás e rosa. Vestido reutilizado esse que me fez manifestar um tanto de mim, do que acredito para o mundo. E me fortaleceu. Foi lindo. Felicidade cotidiana.

"Imaginava que o mundo inteiro era uma grande máquina. As máquinas nunca vêm com peças sobressalentes, vêm sempre com a quantidade certa que precisam. Então entendi que se o mundo fosse uma grande máquina, eu não poderia ser uma peça sobressalente. Eu tinha que estar aqui por alguma razão..." (Hugo Cabret)


E então, em diversas pequenas felicidades, observei a manifestação de quem eu sou. Deixando um tanto, semeando outro bocado para ser mais (que assim seja!). E nada mais leve do que se enxergar sendo quem a gente é...